Ao
longo da história, a crença na existência de raças superiores e
inferiores -- racismo -- foi utilizada para justificar a escravidão ou o
domínio de determinados povos por outros.
| A Punição do Escravo, obra de Jean-Baptiste Debret |
Racismo
é a convicção de que existe uma relação entre as características
físicas hereditárias, como a cor da pele, e determinados traços de
caráter e inteligência ou manifestações culturais. A base, mal definida,
do racismo é o conceito de raça pura aplicada aos homens, sendo
praticamente impossível descobrir-lhe um objeto bem delimitado. Não se
trata de uma teoria científica, mas de um conjunto de opiniões, além de
tudo pouco coerentes, cuja principal função é alcançar a valorização,
generalizada e definida, de diferenças biológicas entre os homens, reais
ou imaginárias.
O
racismo subentende ou afirma claramente que existem raças puras, que
estas são superiores às demais e que tal superioridade autoriza uma
hegemonia política e histórica, pontos de vista contra os quais se
levantam objeções consideráveis. Em primeiro lugar, quase todos os
grupos humanos atuais são produto de mestiçagens. A constante evolução
da espécie humana e o caráter sempre provisório de tais grupos tornam
ilusória qualquer definição fundada em dados étnicos estáveis. Quando se
aplica ao homem o conceito de pureza biológica, confunde-se quase
sempre grupo biológico com grupo lingüístico ou nacional.
O
fenômeno, cujas origens são complexas, ocorre com maior ou menor
intensidade em todas as etnias e em todos os países e suas origens são
muito complexas. Quando o Japão, por exemplo, conseguiu, na primeira
metade do século XX, um desenvolvimento econômico comparável ao da
Europa, surgiu no seio do povo japonês uma ideologia racista muito
semelhante à que justificava o colonialismo europeu.
Um primeiro estágio de racismo confunde-se com a xenofobia:
determinado grupo social hostiliza um estranho por considerar nefasto
todo contato fora do grupo social, o qual tira sua força da
homogeneidade e da aceitação entre seus membros das mesmas regras e
princípios, recusados ou desconhecidos pelo elemento exógeno. Em outro
nível, tal repúdio é justificado pela diferença física, que se torna o
suporte do componente racista.
Racismo nas sociedades modernas.
A história da humanidade refere-se, desde os tempos mais antigos, a
relações, decorrentes das migrações, entre povos racialmente distintos.
No entanto, antes da época de expansão das nações européias, as
relações raciais não apresentavam a feição que mais tarde as
caracterizaria.
Entre
egípcios, gregos e romanos, as relações eram de vencedor e cativo, e
vigoravam indiferentemente, mesmo com povos a eles semelhantes. Durante
toda a Idade Média, a base do antagonismo entre povos era, sobretudo,
de índole religiosa. Graças à grande força política da igreja,
justificava-se a conquista e submissão de povos para incorporá-los à
cristandade. Ainda quando dos primeiros contatos entre portugueses e
africanos, não havia nenhum atrito de ordem racial.
| Francisco Pizarro dominando o Imperador Inca Atahualpa |
Quando,
a partir do Renascimento, o progresso técnico permitiu à Europa
dominar o mundo, surgiram diversas ideologias que pretenderam explicar e
justificar a dominação dos demais continentes pelos países europeus,
alegando existir na Europa uma raça superior, destinada por Deus ou pela
história a dominar as raças não-européias, consideradas inferiores. A
expansão espanhola na América buscou sustentação ideológica em crenças
tais como as de que os ameríndios não eram verdadeiros seres humanos, o
que justificaria sua exploração.
O
moderno racismo europeu encontrou fundamento teórico na obra do conde
de Gobineau, Essai sur l'inégalité des races humaines (Ensaio sobre a
desigualdade das raças humanas) publicada em meados do século XIX. Nela,
o autor francês sustentou que a civilização européia fora criação da
raça ariana, uma minoria seleta da qual descendiam as aristocracias de
toda a Europa e cujos integrantes eram os senhores "naturais" do resto
da população. Outro paladino do racismo foi Houston Stewart Chamberlain,
que, embora inglês de nascimento, tornou-se conhecido como
"antropólogo do kaiser". Publicou na Alemanha, em 1899, Die Grundlagen
des neunzehnten Jahrhunderts (Os fundamentos do século XIX), obra em
que retomou o mito da raça ariana e identificou-a com o povo alemão.
Outros
autores, como Alfred Rosenberg, também contribuíram para criar a
ideologia racista. Esta, convertida em programa político pelo nazismo,
visava unificar os alemães, mas como a identificação dos traços raciais
específicos do povo de senhores era impossível na prática, criou-se uma
"raça inimiga" que unisse contra ela o povo alemão. A perseguição dos
judeus ou a escravização de povos da Europa oriental em nome da
superioridade da pretendida raça ariana resultou, por suas atrocidades,
na adoção pela opinião pública mundial de critérios opostos ao racismo,
a partir do final da segunda guerra mundial.
| Conflitos "raciais" na África do Sul |
Os
trabalhos de antropólogos e sociólogos rejeitam globalmente as teorias
racistas e a seu desprestígio científico une-se a adoção, por todos os
estados, de princípios como os contidos na Declaração Universal dos
Direitos do Homem. Ao mesmo tempo, nos países em que tradicionalmente se
praticavam formas de discriminação racial, os preconceitos passaram a
ser suavizados e se impôs uma igualdade de oportunidades cada vez
maior. Uma exceção à tendência geral, a partir de 1948, foi a África do
Sul, onde se exacerbou a tendência à segregação dos grupos étnicos
(apartheid) sob o domínio dos sul-africanos de origem européia. Tal
sistema político racista chegou ao fim com a convocação das primeiras
eleições para um governo multirracial de transição, em abril de 1994.
Fonte: História Pensante
Nenhum comentário:
Postar um comentário