Muçulmano, negro e revolucionário, ele pregou a luta armada
contra os brancos americanos. Depois, brigou com seus velhos mentores,
flertou com o socialismo e adotou um discurso menos racista. Acabou
morto com 14 tiros num crime que continua sem solução, 40 anos depois. Ele foi registrado como Malcolm Little, caiu no mundo com o apelido
de Red, ficou conhecido como Malcolm X e morreu como El-Hajj Malik
El-Shabazz. Em todas as fases de sua vida, ele conviveu com ameaças,
atentados e ódio racial. Em 21 de fevereiro de 1965, às 15h10, a
história do líder americano que lutava pelos direitos dos negros chegou
ao fim com 14 tiros: Malcolm foi assassinado diante de uma platéia que
incluía sua mulher e três de suas quatro filhas, num teatro no Harlem,
em Nova York. Três homens ligados a uma organização religiosa da qual
Malcolm foi líder durante anos, a Nação do Islã, foram presos, mas nunca
ficou esclarecido quem planejou o crime.
Quarenta anos depois, o historiador americano Manning Marable,
professor da Universidade de Columbia, acredita ter revelações
importantes sobre a vida de Malcolm que levantam novas questões sobre o
caso. Marable pesquisa essa história há uma década e prepara um livro
sobre o assunto. Mas antes quer ter acesso aos arquivos secretos do FBI,
a polícia federal americana. “Milhares de documentos sobre Malcolm X
continuam sob sigilo”, diz o historiador.
Segundo ele, no entanto, muito da imagem que hoje temos de Malcolm
está errada e a culpa é do livro Autobiografia de Malcolm X, de Alex
Haley, lançado em 1965. O livro está repleto de cortes e grande parte
das polêmicas idéias de Malcolm foram ignoradas: “Eu li uma carta de
Haley falando sobre a visão anti-semita de Malcolm e dizendo que retirou
as declarações mais ofensivas sobre isso do livro”, afirma Marable.
“Muitas de seus ex-colegas e amigos ainda se autocensuram ao falar sobre
ele e suas idéias.”
O historiador americano alega ainda que Haley, que morreu em 1992,
foi censurado pelo FBI. “O livro surgiu a partir de um artigo sobre os
muçulmanos americanos que Alex Haley e Alfred Balk escreveram em 1963
para uma revista de Nova York. O que pouca gente sabe é que Balk havia
feito um acordo com agentes do FBI: em troca de informações sobre a
Nação do Islã, os dois fariam o artigo de maneira a isolar a organização
das demais correntes da sociedade negra da época”, diz Marable.
Para completar, os três capítulos finais do livro original não foram
publicados, por opção de Haley, e hoje pertencem a um advogado de
Detroit, que pagou 100 mil dólares por eles. Marable teve acesso ao
material e diz que, entre outras coisas, ele revela um Malcolm
politizado, com um discurso alinhado com a esquerda internacional e
revolucionária dos anos 60. “Fica claro, ainda, seu plano de reunir os
negros muçulmanos, que ele liderava e que, por muito tempo, defenderam a
separação entre negros e brancos na América, com os líderes cristãos
integracionistas encabeçados por Martin Luther King.
“Haley difundiu a imagem de Malcolm X como queria o FBI”, diz
Marable. Seu livro vendeu milhões de cópias mundo afora, virou leitura
obrigatória em escolas americanas e quando virou filme, dirigido por
Spike Lee, em 1992, rendeu o Oscar de Melhor Ator a Denzel Washington.
“Ali, ele é apenas um homem movido pelo ódio, um militante racista e
violento. Suas idéias políticas de integração entre brancos e negros,
suas críticas à sociedade americana que privilegiava cada vez menos
gente ficaram como uma lembrança desbotada”. Para Marable, Malcolm é um
dos líderes mais mal-entendidos da história americana e desvendar sua
morte é apenas o primeiro passo para entender quem foi o homem por trás
de Malcolm Little, Red, Malcolm X e El-Hajj Malik El-Shabazz.
Pequeno
Malcolm Little nasceu em 19 de maio de 1925, em Omaha, estado de
Nebraska. Mulato, por trás da cor de sua pele, ele guardava uma
tragédia: sua avó engravidou de sua mãe depois de ser estuprada por um
homem branco que nunca foi preso, sequer acusado de crime. O quarto dos
oito filhos da dona de casa Louise e do pastor da igreja batista Earl
Little, Malcolm aprendeu o que era racismo antes mesmo de pronunciar a
primeira palavra. Em 1926, a família teve de se mudar às pressas depois
que membros da Legião Negra, uma espécie de versão local da Ku Klux
Klan, botaram fogo na casa da família. O atentado foi uma represália aos
sermões de Earl em favor dos direitos dos negros.
Os Little fugiram. Primeiro para Wisconsin, e, três anos depois, para
uma fazenda no Michigan. Lá, seus vizinhos, todos brancos, venceram uma
ação na justiça exigindo que eles se mudassem para outra região onde só
moravam negros. Os Little se recusaram e tiveram a casa novamente
incendiada. O pai de Malcolm pediu ajuda à polícia e acabou preso,
acusado de forjar o incidente para fraudar o seguro. A rixa entre
vizinhos só acabou em setembro de 1931. E, mais uma vez, de forma
trágica: o corpo de Earl Little foi encontrado mutilado nos trilhos de
uma estrada de ferro. Não houve investigação criminal e as autoridades
concluíram que ele havia cometido o suicídio.
Louise resistiu o quanto pôde para manter a família unida, mas não
era raro faltar comida em casa. Dois dias antes do Natal de 1938, ela
sofreu um colapso e foi internada num hospital para doentes mentais, de
onde só sairia 26 anos depois. Malcolm ficou sob a guarda de um casal de
brancos, os Swerlin, num lar de detenção juvenil. “Eles gostavam de mim
como de seus animais”, disse Malcolm, numa entrevista publicada na
revista Playboy, em 1963.
Vermelho
Com 15 anos, Malcolm abandonou os Swerlin, a escola e foi morar com
uma irmã mais velha em Boston. Depois de viver um tempo de bicos,
arrumou emprego no trem para Nova York. Ali, ele passou a freqüentar os
bares do Harlem (o mítico bairro de maioria negra) e conviver com os
criminosos locais, seus carros e prostitutas. “Nessa época, ele não
parecia ter orgulho de ser negro”, afirmou Haley. “Esticava os cabelos
com produtos químicos e namorava mulheres brancas. Era conhecido como
New York Red ou simplesmente Red (“vermelho”), por causa da cor de seus
cabelos castigados por alisantes.”
Em 1942, aos 17 anos, soube que um grupo de trapaceiros do Harlem
precisava de um ajudante e entrou para o crime: tráfico de drogas,
roubo, prostituição e jogos. Detido duas vezes em Nova York, ele voltou
para Boston e criou sua própria gangue para roubar casas. Foi uma má
idéia: apenas duas semanas nessa vida e ele foi pego tentando vender um
relógio roubado. Red foi condenado a dez anos de cana.
Foi na cadeia, em 1947, que ele ouviu falar pela primeira vez da
Nação do Islã. Wilfred, seu irmão mais velho havia aderido à religião e
levado consigo cada um dos Little. Foram as cartas da família que
apresentaram a Red aquela “religião natural para os homens negros”, como
escreveu Wilfred em carta para o irmão. Mas foram os textos de Elijah
Muhammad, líder da Nação do Islã, que converteram Red. Dizia Elijah que
Deus era negro e se chamava Alá. “O negro americano deve ser reeducado.
O Islã dará a ele as qualificações para sentir orgulho, e não vergonha
ao ser chamado de negro.” Em seu discurso racista e segregacionista,
Elijah defendia países separados para brancos (“os demônios da
humanidade”) e para os negros ou afro-americanos, como preferia.
Red foi desaparecendo aos poucos. Cortou os cabelos, deixou o
linguajar de gângster e entrou para o time de muçulmanos da prisão. No
dia 7 de agosto de 1952, após seis anos e meio na prisão, Malcolm foi
solto.
“X”
Um mês depois de sair, Malcolm foi aceito na Nação do Islã e passou a
se apresentar sem o sobrenome “Little”. “Esse nome foi dado aos meus
ancestrais por aqueles que os fizeram escravos e recuso-me a usá-lo”,
dizia Malcolm, que adotou o “X”, para simbolizar sua identidade
desconhecida. O novo Malcolm, como também passou a se apresentar,
surgiu numa hora e num país conturbados. Em diferentes estados
americanos, principalmente do sul, onde cenas de violência contra negros
eram comuns, a segregação racial estava na lei e limitava o acesso dos
negros às escolas e aos transportes públicos, por exemplo.
Em 1955, um boicote contra os ônibus em Montgomery, no Alabama, onde
Rosa Parks (leia quadro nessa página), uma mulher negra se negou a ceder
seu lugar para um branco, iniciou uma série de manifestações populares
que ficariam conhecidas como “Movimento pelos Direitos Civis”. Surgiram
entidades como Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor
(NAACP, na sigla em inglês), para arrecadar fundos, contratar advogados e
atuar politicamente contra as legislações racistas dos Estados Unidos.
Mas a luta não foi apenas pacífica como queriam alguns dos líderes, como
o mais famoso deles, o reverendo Martin Luther King Jr. (leia na página
ao lado). As polícias e tribunais estaduais formados e controlados por
brancos não aceitavam mudanças. Em 1954, quando o governo federal
obrigou a primeira universidade do sul a aceitar alunos negros, houve
quebra-quebra, prisões e assassinatos de militantes negros. Cenas que
Malcolm conhecia desde a infância. Mas, dessa vez, ele estava pronto
para reagir.
Malcolm X adotou um discurso violento e dizia que o negro precisava
reagir diante do branco opressor. Nessa época, ele já não era mais um
mero ex-presidiário fanático. Seu carisma e dedicação impressionaram
Elijah Muhammad e Malcolm ascendeu rapidamente na hierarquia da Nação do
Islã. Em dois anos, comandou a construção de templos em Boston,
Hartford e Filadélfia, virou líder do Templo Número 7, no Harlem, e
assumiu o posto de porta-voz da organização.
Aos 32 anos, Malcolm X se casou com Betty X, uma freqüentadora do
templo no Harlem. Ele era, então, o representante mais famoso da
história da Nação do Islã. Sua figura imponente e seus discursos haviam
sido fundamentais para o crescimento da organização, que passou de 500
membros para 30 mil em dez anos. Malcolm dizia que as mulheres deveriam
cuidar da família, os homens velhos deveriam se dedicar a entender e
passar adiante os ensinamentos de Elijah e os jovens seriam treinados
para usar a violência contra o inimigo, caso fosse necessário.
E geralmente era. As tensões raciais cresceram e os confrontos com a
polícia viraram rotina. Na noite de 27 de abril de 1962, um grupo de
policiais matou um membro da Nação do Islã, Ronald Strokes, deixou outro
paralítico e cinco feridos ao invadir um templo em Los Angeles.
Revoltado, Malcolm X convocou a comunidade negra para protestar nas
ruas. Milhares atenderam, cerca de 80 foram presos e 14 feridos, entre
eles dois policiais. “Não há nada no nosso livro, o Alcorão, que ensine a
sofrer tranqüilo. Nossa religião ensina a ser inteligente, pacífico,
cortês, obedecer a lei e respeitar os outros. Mas, se alguém bota a mão
em você, mande-o para o cemitério”, disse Malcolm, em 1962.
Seus discursos – cada vez mais concorridos – ficaram bem inflamados.
Em dezembro daquele ano, um deles ficou famoso. Do templo simples no
Harlem – pouco mais que um púlpito de madeira, cadeiras enfileiradas e
uma imagem de Elijah Muhammad na parede – onde só negros podiam entrar,
Malcolm falou do orgulho de sua cor e de sua raiva pelo homem branco, o
inimigo: “Nós não separamos nossa cor da nossa religião. O homem branco
também nunca separou o cristianismo da cor branca. Quando você ouve o
homem branco se gabando: ‘Eu sou cristão’, ele está se gabando de ser um
homem branco. Minha mãe era cristã, meu pai era cristão. Meu pai era um
homem negro e minha mãe era uma mulher negra, mas as canções que eles
cantavam na igreja eram feitas para encher seus corações com o desejo de
ser branco”.
Com esses discursos, era natural que atraísse a atenção dos órgãos de
segurança americanos. “Os membros acreditam que Alá é o ser supremo e
afirmam serem descendentes da raça original da Terra. Eles seguem os
ensinamentos de Alá como interpretados por Elijah Muhammad, segundo os
quais, os membros desta minoria racial nos Estados Unidos não são
cidadãos deste país, mas meros escravos e irão continuar assim até que
eles libertem a si mesmos destruindo os não-muçulmanos e o
cristianismo”, relatou um agente do FBI em um relatório sobre a Nação do
Islã.
Ao mesmo tempo que crescia sua popularidade, Malcolm X passou a ser
questionado por Elijah e outros líderes da Nação do Islã. A relação
azedou quando Malcolm descobriu – e denunciou – que Elijah mantinha
relações amorosas secretas com mulheres da organização. Mas o rompimento
definitivo aconteceu no fim de 1963. Quando o presidente americano John
Kennedy foi baleado, em 22 de novembro, Malcolm X se preparava para
fazer um discurso, em Nova York. Ao chegar ao local, recebeu um recado
de Elijah Muhammad, pedindo que não comentasse o atentado. Malcolm e os
demais líderes negros não gostavam muito do presidente morto, que
consideravam omisso em relação ao movimento pelos direitos civis, mas
todos concordaram que não era hora de criticá-lo, já que a população
estava traumatizada. Todos menos Malcolm X. Perguntado sobre a morte de
Kennedy, ele respondeu com ironia: “As galinhas voltam para dormir em
casa”, um ditado americano cujo significado se parece com o do nosso
“Aqui se faz, aqui se paga”. Ou seja, Malcolm insinuou que Kennedy
morreu por conseqüência de seus próprios atos, porque falhou ao combater
a violência nos Estados Unidos.
A declaração foi mal recebida, inclusive pela população negra, que se
voltou contra a Nação do Islã. Irritado, Elijah ordenou que Malcolm se
calasse por 90 dias. “Alguns observadores crêem que Elijah aproveitou-se
do momento em que a opinião pública se voltou contra Malcolm, para
livrar-se dele”, diz Clayborne Carson, historiador da Universidade de
Stanford, nos Estados Unidos. Terminado o silêncio, em 8 de março de
1964, Malcolm X falou. E disse que deixaria a Nação do Islã.
Peregrino
Decidido a virar um muçulmano autêntico, Malcolm X viajou para a
Arábia Saudita, em abril de 1964, para fazer a peregrinação a Meca. Ali,
ele se deu conta de que Elijah Muhammad pregava uma farsa ultrapassada
ao dizer que as mulheres deviam ser subservientes e que todos os males
dos negros advinham da escravidão na América. Na África, percebeu que o
problema não era o homem branco, mas o imperialismo, o sistema político
e econômico que permitia que negros pobres fossem explorados por negros
ricos. “Durante os últimos 11 dias aqui no mundo muçulmano, eu tenho
comido no mesmo prato, bebido do mesmo copo e dormido na mesma cama –
enquanto rezo para o mesmo Deus – que seguidores muçulmanos cujos olhos
são os mais azuis dos azuis, cujos cabelos são o mais louros dos louros e
cujas peles são as mais brancas das brancas. Nós somos todos iguais”,
escreveu numa carta para a família. Na volta, ele não era mais Malcolm
X, mas El-Hajj Malik El-Shabazz.
E não foi só seu nome que mudou. “Seu discurso assumiu boas doses de
críticas ao capitalismo americano e o aproximou de líderes socialistas,
como Che Guevara, que Malcolm elogiava por seu caráter revolucionário e
anti-imperialista”, diz Carson. Em 1960, ele já havia tido um encontro
de meia hora com Fidel Castro e, em 1964, tentou levar Che para uma
reunião da recém-fundada Organização da Unidade Afro-Americana, no
Harlem. O líder cubano achou que estaria desprotegido e não foi ao
encontro, mas mandou uma mensagem, lida pelo próprio Malcolm a um
auditório eufórico: “Caros irmãos e irmãs do Harlem, eu gostaria de
estar com vocês e Brother Babu, mas as condições atuais não são boas
para esse encontro. Recebam calorosas saudações do povo de Cuba e
especialmente de Fidel. Unidos, nós vamos vencer”. O Brother Babu,
citado por Che, era Abdul Rahman Muhammad Babu, líder socialista
africano que virara ídolo no Harlem.
A relação com Elijah Muhammad virou rivalidade. “Apenas aqueles que
desejam ser levados ao inferno seguirão Malcolm”, escreveu o novo
porta-voz da Nação do Islã, Louis Farrakhan, em dezembro de 1964, no
jornal Muhammad Speaks. “Elijah se opõe ao negros americanos ouvirem o
verdadeiro Islã, e tem ordenado seus seguidores a aleijar ou matar
qualquer um que queira deixá-lo para seguir o verdadeiro Islã”, disse
Malcolm numa entrevista para a revista Al-Muslimoon, em fevereiro de
1965.
Alguns dias depois, em 14 de fevereiro, a casa de Malcolm foi
incendiada. Sua mulher, que já vinha recebendo telefonemas com ameaças
de morte, conseguiu fugir com as filhas. A família acusou publicamente a
Nação do Islã. A organização negou e disse que o próprio Malcolm
forjara o incêndio. Sobre o caso, nada foi apurado pelas autoridades e
Malcolm escreveu ao secretário de estado americano Dean Rusk: “O governo
não tem nenhuma intenção de proteger minha vida”.
Mesmo consciente do risco que corria, uma semana depois do atentado,
Malcolm foi fazer um discurso, no Harlem. Diferentemente do que ocorria
nas reuniões da Nação do Islã, por exemplo, Malcolm não permitia que
seus seguranças portassem armas, nem que o público fosse revistado na
entrada. Quando ele começou a falar, uma confusão no meio da platéia
atraiu a atenção dos guarda-costas e ele ficou sozinho no palco. Das
primeiras filas do auditório, alguns homens saíram atirando em sua
direção. Malcolm caiu a poucos passos da mulher e das filhas. Foi
socorrido, mas era tarde. Baleado 14 vezes, ele chegou morto ao
hospital.
Cerca de um ano depois, três homens da Nação do Islã – Talmadge
Hayer, Norman 3X Butler e Thomas 15X Johnson – foram presos, acusados de
terem atirado em Malcolm. Dois dos presos, Butler e Johnson, sequer
estavam no auditório. Ambos tinham álibi e acabaram inocentados. Foram
encontrados pedaços de balas de duas armas no corpo de Malcolm, uma
pistola calibre 45 e uma 9mm. A primeira foi entregue ao FBI por um
segurança de Malcolm, que disse que tirou a arma de Hayer após o
tiroteio. A outra nunca apareceu. Em 1977, Hayer declarou que planejou o
assassinato com outros quatro muçulmanos que ele conhecia apenas de
vista e mal se lembrava do primeiro nome. Um advogado tentou reabrir o
caso para tentar identificar esses homens e quem estaria por trás deles,
mas não conseguiu. Até hoje não há evidências que liguem o crime à
Nação do Islã (leia quadro na página ao lado).
O Departamento de Polícia de Nova York tinha um agente disfarçado
entre os seguranças de Malcolm, chamado Gene Roberts, que anos depois
foi promovido por ter se infiltrado e ajudado a destruir outra
organização, o Partido dos Panteras Negras. Outros policiais disfarçados
também estavam no auditório no dia do assassinato. Mas nem eles nem
Roberts acrescentaram nada ao processo. Por outro lado, policiais
uniformizados que trabalhavam nos comícios de Malcolm em Nova York não
entraram no teatro naquele dia. Diriam depois que receberam ordens para
ficar do outro lado da rua. Tudo indica que a tragédia já estava
anunciada. “Resta saber se ela foi provocada por agentes infiltrados e
por que nada foi feito para mudar o desfecho”, afirma o professor
Manning Marable.
Heróis da resistência
Os negros queriam igualda deperante a lei. Veja como a lei tratou alguns de seus líderes
Rosa Parks
No dia 1º de dezembro de 1955, Rosa Parks entrou para a história ao
se negar a ceder seu lugar num ônibus público para um homem branco, em
Montgomery, no Alabama. Ela foi presa por desobedecer a lei de
segregação e, em protesto, a comunidade negra decidiu fazer um boicote
aos ônibus da cidade a partir da segunda-feira seguinte, dia 5. No mesmo
dia, Rosa foi julgada, considerada culpada e condenada a pagar uma
multa de 14 dólares. Liderado pelo pastor de uma igreja batista local,
Martin Luther King Jr., o boicote durou 381 dias. Até que, em 21 de
dezembro de 1956, a Suprema Corte declarou que as leis de segregação de
Montgomery eram inconstitucionais. No dia seguinte, Rosa Parks entrou
num ônibus pela porta da frente, escolheu um dos primeiros assentos e
ficou conhecida como a “Mãe do Movimento pelos Direitos Civis”. Aos 92
anos, ela mora em Detroit.
Medgar Evers
No início dos anos 50, Medgar Wiley Evers conciliava o trabalho de
vendedor de seguros com o de ativista da Associação Nacional para o
Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), no
Mississippi. Quando a Suprema Corte Americana considerou ilegal a
segregação nas escolas, em 1954, Evers tentou estudar direito na
universidade local, mas não conseguiu. Oito anos depois, ajudou James
Meredith a se tornar o primeiro estudante negro da Universidade do
Mississippi, um marco para a luta dos direitos dos negros. Evers liderou
um boicote contra três comerciantes brancos de Jackson (capital do
Mississippi), que davam dinheiro para os Conselhos dos Cidadãos Brancos,
considerado o braço legal da Ku Klux Klan. Acabou assassinado em junho
de 1963 em frente a sua casa por um branco racista. O criminoso
confesso, Byron De La Beckwith, que havia fundado o Conselho dos
Cidadãos Brancos do Mississippi, foi inocentado duas vezes e só no
terceiro julgamento, 31 anos após a morte de Evers, foi condenado à
prisão perpétua.
Muhammad Ali
No esporte, o herói negro da década de 60 foi Cassius Clay, ou como
ficaria conhecido depois, Muhammad Ali. Assim como Malcolm X, ele foi
membro da Nação do Islã e ajudou a divulgar os ensinamentos de Elijah
Muhammad. Ali foi campeão mundial de boxe profissional pela primeira vez
em 1964, aos 22 anos, mas perdeu o título e acabou preso três anos
depois, ao se recusar a lutar na Guerra do Vietnã. Polêmico, alegou que a
guerra era contra sua religião e que nenhum vietnamita fizera nada
contra seus irmãos negros. Recebeu o apoio de grande parte da população
americana, negros e brancos. Apenas em 1971, porém, a Suprema Corte dos
Estados Unidos voltaria atrás em sua decisão. Em 1974, reconquistou o
título mundial e, seis anos depois, se aposentou ao ser derrotado por
Larry Holmes. Ele deixou a Nação do Islã em 1975 para se dedicar ao
islamismo tradicional. Hoje, aos 63 anos, luta contra o mal de
Parkinson.
Martin Luther King Jr.
Por liderar o boicote aos ônibus de Montgomery, Martin Luther King
Jr. foi ameaçado de morte e sua casa sofreu um atentado à bomba. Mas
King jamais revidou uma agressão na vida. Com suas idéias pacifistas,
ele mobilizou multidões, foi preso dezenas de vezes e se tornou o homem
mais jovem a ganhar o Prêmio Nobel da Paz (em 1964, aos 35 anos). King
era o oposto de Malcolm X. Enquanto este promovia a revolta entre as
comunidades urbanas do norte do país, aquele falava sobre integração
racial para a população rural do sul. Era óbvio que o discurso “Se você
me bater, te bato de volta”, de Malcolm jamais se casaria com o "Sofra
em silêncio", de King. Mas, apesar de os dois líderes seguirem rumos,
religiões políticas tão diferentes, eles tiveram finais parecidos. Nos
últimos anos de vida, descobririam que a luta contra o racismo era uma
questão maior, global. Ambos foram mortos a tiros quando tinham 39 anos.
No caso de King, num hotel no Memphis, Tennessee, em 1968.
Rubin "Hurricane" Carter
O boxeador Rubin Carter, (apelidado de “furacão”), teve uma carreira
vitoriosa como peso-médio e era forte candidato ao título mundial até
que, aos 29 anos, foi condenado à prisão perpétua por um crime que não
cometeu. A tragédia aconteceu porque Rubin passou de carro perto do
local onde três pessoas tinham sido assassinadas, num bar em Nova
Jersey, em junho de 1966. Sem nenhuma prova contra ele, Rubin levou a
culpa, simplesmente por ser negro. Depois de dez anos na cadeia, ele
conseguiu um segundo julgamento – e foi novamente considerado culpado.
Mas, graças à biografia que escreveu na prisão, Carter foi solto em
1985. Filho adotivo de um casal de ativistas canadenses, o jovem Lesra
Martin, nascido numa comunidade pobre do Brooklin, em Nova York, se
identificou com o sofrimento de Carter ao ler o livro. Ajudado por sua
nova família, Martin conseguiu reabrir o caso e Carter provou que não
era um criminoso, mas uma vítima do racismo. Ele tem 68 anos e mora no
Canadá.
Tragédia sem fim
Viúva de Malcolm X também foi morta
Após o assassinato de Malcolm, Betty Shabazz culpou a Nação do Islã
pela morte do marido. Em 1994, acusou diretamente Louis Farrakhan (que
sucedeu Malcolm como líder da organização). Naquele ano, a segunda das
seis filhas de Betty e Malcolm, Qubilah, foi presa tentando contratar um
homem para matar Farrakhan. O “matador” na verdade era um agente do
FBI. Farrakhan, numa reviravolta e tanto, pagou a fiança e defendeu
Qubilah: “A filha de Malcolm foi enganada por gente que quer criar
discórdia entre a Nação do Islã e a comunidade negra nos Estados
Unidos”, disse. Quatro meses depois, Qubilah e Farrakhan encerraram a
questão com um aperto de mãos no Harlem. Em 1995, ela voltaria a
aparecer nos jornais ao ser levada para uma clínica para viciados em
drogas. Durante sua internação, que duraria dois anos, o filho, chamado
Malcolm como o avô, foi viver com a avó Betty. O menino de apenas 12
anos também era viciado e, em junho de 1997, ateou fogo na casa da avó,
que sofreu queimaduras em todo o corpo e morreu 22 dias depois. No dia
19 de maio 2004, quando Malcolm X completaria 80 anos, suas filhas
inauguraram o Centro de Educação e Memorial Malcolm X e Betty Shabazz,
no mesmo local onde elas viram o pai ser assassinado 40 anos atrás.
Saiba mais
Livro
Autobiografia de Malcolm X, Alex Haley, Record, 1992 - O best-seller
transformado em filme em 1992 é alvo de críticas da família Shabazz
Filme
Malcolm X, Arnold Perl, 1972 - Documentário com imagens originais,
contou com a participação de Betty Shabazz. Faz parte da programação do
canal de TV a cabo Cinemax
Sites
www.columbia.edu/cu/ccbh/mxp - Organizado pelo professor Manning Marable tem o apoio da família de Malcolm X. Em inglês
www.malcolm-x.org - Ampla coleção de entrevistas, discursos, cartas e fotos de Malcolm X
Fonte: Aventuras na História
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