No dia 08 de novembro de 1798, ocorre o fim mal sucedido da Conjuração Baiana: seus principais líderes - João de Deus Nascimento, Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, Lucas Dantas do Amorim Torres e Manoel Faustino dos Santos Lira - são condenados e executados.
Na imagem, Praça da Piedade, em Salvador, local da execução dos conjurados.
Conjuração Bahiana ou Revolta dos Búzios

LIBERDADE, FRATERNIDADE, IGUALDADE
A
segunda metade do século XVIII é marcada por profundas transformações
na história, que assinalam a crise do Antigo Regime europeu e de seu
desdobramento na América, o Antigo Sistema Colonial. No Brasil, os
princípios iluministas e a independência dos Estados Unidos, já tinham
influenciado a Inconfidência Mineira em 1789. Os ideais de liberdade e
igualdade se contrastavam com a precária condição de vida do povo, sendo
que, a elevada carga tributária e a escassez de alimentos, tornavam
ainda mais grave o quadro sócio-econômico do Brasil. Este contexto será
responsável por uma série de motins e ações extremadas dos setores mais
pobres da população baiana, que em 1797 promoveu vários saques em
estabelecimentos comerciais por-tugueses de Salvador. Nessa conjuntura
de crise, foi fundada em Salvador a “Academia dos Renascidos”, uma
associação literária que discutia os ideais do iluminismo e os problemas
sociais que afetavam a população. Essa associação tinha sido criada
pela loja maçônica “Cavaleiros da Luz”, da qual participavam nomes
ilustres da região, como o doutor Cipriano Barata e o professor
Francisco Muniz Barreto, entre outros. A conspiração para o movimento,
surgiu com as discussões promovidas por esta Academia e contou com a
participação de pequenos comerciantes, soldados, artesãos, alfaiates,
negros libertos e mulatos, caracterizando-se assim, como um dos
primeiros movimentos populares da História do Brasil. As inflamadas
discussões na “Academia dos Renascidos” resultarão na Conjuração Baiana
em 1798. A participação popular e o objetivo de emancipar a colônia e
abolir a escravidão, marcam uma diferença qualitativa desse movimento em
relação à Inconfidência Mineira, que marcada por uma composição social
mais elitista, não se posicionou formalmente em relação ao escravismo. O
movimento revolucionário baiano de 1798, mais conhecido como a Revolta
dos Alfaiates ou Revolta dos Búzios, é um dos mais amplos, do ponto de
vista político, econômico e social ocorridos no Brasil-Colônia. Segundo
os historiadores Tavares (1999) e István (1975), até o final do século
XVIII, nenhum movimento político no Brasil possuíra um programa tão
amplo, com penetração tão profunda nas classes e camadas sociais, quanto
este.
A CONVOCAÇÃO PELOS REVOLUCIONÁRIOS
Com
fundamental participação de escravos e seus descendentes, pretos e
pardos, soldados, pequenos comerciantes, artesãos – com um grande número
de alfaiates - o movimento discutia os caminhos para o Brasil livre da
tutela portuguesa, tornando-se uma república democrática, na qual a cor
da pele não fosse razão para discriminação. Entre as lideranças do
movimento, destacaram-se os alfaiates João de Deus do Nascimento e
Manuel Faustino dos Santos Lira (este com apenas 18 anos de idade), além
dos soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, todos mulatos. Um
outro destaque desse movimento foi a participação de mulheres negras,
como as forras Ana Romana e Domingas Maria do Nascimento, Luiza
Francisca de Araújo, Lucrecia Maria Gercent e Vicência.
Panfleto da revolta de 1798 Arquivo Público da Bahia
Assim,
em agosto de 1798 começam a aparecer nas portas de igrejas e casas da
Bahia, panfletos que pregavam um levante geral e a instalação de um
governo democrático, livre e independente do poder metropolitano. Em 12
de agosto de 1798, os conspiradores colocaram nos muros da cidade papéis
manuscritos chamando a população à luta e proclamando idéias de
liberdade, igualdade, fraternidade e República: “está para chegar o
tempo feliz da nossa liberdade: o tempo em que seremos irmãos: o tempo
em que todos seremos iguais”; ...”Homens o tempo é xegado para vossa
ressurreição, sim para que ressuscitareis do abismo da escravidão, para
que levantareis a sagrada Bandeira da Liberdade”.
A REPRESSÃO:PRISÕES, DEGREDO E ENFORCAMENTOS
Uma
terrível repressão tomou conta da Cidade do Salvador. A repressão ao
movimento foi das mais violentas, com a execução de quatro
revolucionários baianos, enforcados na Praça da Piedade. A violenta
repressão metropolitana conseguiu deter o movimento, que apenas
iniciava-se, detendo e torturando os primeiros suspeitos. Governava a
Bahia nessa época (1788-1801) D. Fernando José de Portugal e Castro, que
encarregou o coronel Alexandre Teotônio de Souza de surpreender os
revoltosos. Com as delações, os principais líderes foram presos e o
movimento, que não chegou a se concretizar, foi totalmente
desarticulado. Após o processo de julgamento, os mais pobres como Manuel
Faustino dos Santos Lira e João de Deus do Nascimento e os mulatos Luiz
Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas foram condenados à morte por
enforcamento, sendo executados na Praça da Piedade a 8 de novembro de
1799. Outros, como Cipriano Barata, o tenente Hernógenes d’Aguilar e o
professor Francisco Moniz foram absolvidos. Os pobres Inácio da Silva
Pimentel, Romão Pinheiro, José Félix, Inácio Pires, Manuel José e Luiz
de França Pires, foram acusados de envolvimento “grave”, recebendo pena
de prisão perpétua ou degredo na África. Já os elementos pertencentes à
loja maçônica “Cavaleiros da Luz” foram absolvidos deixando clara que a
pena pela condenação, correspondia à condição sócio-econômica e à origem
racial dos condenados. A extrema dureza na condenação aos mais pobres,
que eram negros e mulatos, é atribuída ao temor de que se repetissem no
Brasil as rebeliões de negros e mulatos que, na mesma época, atingiam as
Antilhas. Todos os enforcados eram pardos, jovens, sendo dois soldados e
dois alfaiates. Os heróis e mártires da Revolução foram: Manuel
Faustino dos Santos Lira, pardo, forro, alfaiate, 18 anos; Lucas Dantas
de Amorim Torres, pardo, liberto, soldado e marceneiro, 24 anos; João de
Deus do Nascimento, pardo, livre, alfaiate, 27 anos; Luiz Gonzaga,
pardo, livre, soldado, 36 anos. O pardo, escravo, lavrante, 32 anos,
Luis Pires, escapou de ser preso. Seria enforcado.Também Pedro Leão de
Aguillar Pantoja, branco, pequeno comerciante, que seria preso e
degregado para a África. Muitos foram degredados para a África e
Fernando de Noronha. Outros revolucionários tiveram penas de prisão e
entre eles estão cinco mulheres: Luiza Francisca de Araújo, parda, 30
anos, mulher de João de Deus; Lucréia Maria Gercent, crioula, forra;
Domingas Maria do Nascimento, parda, forra; Ana Romana Lopes, parda,
forra; Vicência, crioula, forra. Houve 45 pessoas presas entre homens e
mulheres, só nos três primeiros meses de repressão policial.
REFLEXÕES
A Revolta dos Alfaiates, como vimos, foi fortemente influenciada pela fase popular da Revolução Francesa, quando os jacobinos liderados por Robespierre conseguiram, apesar da ditadura política, importantes avanços sociais em benefício das camadas populares, como o sufrágio universal, ensino gratuito e abolição da escravidão nas colônias francesas. Essas conquistas, principalmente essa última influenciaram outros movimentos de independência na América Latina, destacando-se a luta por uma República abolicionista no Haiti e em São Domingos, acompanhada de liberdade no comércio, do fim dos privilégios políticos e sociais, da punição aos membros do clero contrário as liberdades e conquistas populares. Se a singularidade da Inconfidência de Mineira está em seu sentido pioneiro, já que apesar de todos seus limites, foi o primeiro movimento social de caráter republicano em nossa história, a Conjuração Baiana, mais ampla em sua composição social, apresenta o componente popular que irá direcioná-la para uma proposta também mais ampla, incluindo a abolição da escravatura. Eis aí a singularidade da Conjuração Baiana, que também é pioneira, por apresentar pela primeira vez em nossa história elementos das camadas populares articulados para conquista de uma república abolicionista.Contudo, completados 200 anos em 1998, é um fato completamente desconhecido do público e/ou ocultado pelas elites. Isso nos remete a Perrot (1992)(1) , quando analisa os excluídos da história francesa: os operários, as mulheres e os prisioneiros. E, no caso brasileiro, acrescentaríamos: os povos negros e indígenas, principalmente. É, pois, fundamental popularizar as lutas sociais que tanto engrandecem o povo e o inspira na luta por uma sociedade de fato igualitária como desejaram e lutaram nossos ancestrais, inclusive das rebeliões ocorridas no século 19 e posteriores.
Texto baseado em TAVARES, Luis Henrique. O Movimento Revolucionário Baiano, JANCSÓ, István. Contradições, tensões, conflito: A Inconfidência Baiana de 1798; MOURA, Clovis. Rebeliões na senzala e Anais do Arquivo Público da Bahia – Vols: XXXV e XXXVI.
“BOLETIM DA REVOLTA DOS BÚZIOS”
AVISO AO POVO BAHIENSE
Ó vós Homens cidadãos; ó vós Povoscurvados, e abandonados pelo Rei, pelos seus despotismos, pelos seus Ministros.
Ó vós povo que nascesteis para sereis livre e para gozares dos bons efeitos da Liberdade, ó vós Povos que viveis flagelados com o pleno poder do indigno coroado, esse mesmo rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos deixar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição, sim para ressuscitareis do abismo da escravidão, para levantareis a sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento; a liberdade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros, finalmente a liberdade é o repouso e a bem aventurança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua aliança, Roma já vive anexa, o Pontífice está abandonado, e desterrado; o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo, as nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para todos; é tempo povo, povo o tempo é chegado para vós defendereis a vossa Liberdade; o dia da nossa revolução; da nossa Liberdade e de nossa felicidade está para chegar, animai-vos que sereis felizes.
Ó vós povo que nascesteis para sereis livre e para gozares dos bons efeitos da Liberdade, ó vós Povos que viveis flagelados com o pleno poder do indigno coroado, esse mesmo rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos deixar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição, sim para ressuscitareis do abismo da escravidão, para levantareis a sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento; a liberdade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros, finalmente a liberdade é o repouso e a bem aventurança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua aliança, Roma já vive anexa, o Pontífice está abandonado, e desterrado; o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo, as nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para todos; é tempo povo, povo o tempo é chegado para vós defendereis a vossa Liberdade; o dia da nossa revolução; da nossa Liberdade e de nossa felicidade está para chegar, animai-vos que sereis felizes.
Heróis da Revolta de Búzios são inscritos no Livro dos Heróis da Pátria
O
ato da presidenta é um reconhecimento à coragem e persistência dos
mártires da Revolta de Búzios - movimento emancipacionista popular,
ocorrido no século XVIII, na capital baiana. Também conhecida como
Revolta dos Alfaiates e Conjuração Baiana, a Revolta dos Búzios é
classificada pelos historiadores como um importante manifesto
anticolonial, liderado por africanos, negros livres, forros e libertos.
A
principal estratégia da Revolta dos Búzios foi a distribuição de
boletins, propagando ideias libertárias e conclamando a população a se
rebelar contra o domínio do governo de Portugal. À época, apelidados de
“sediciosos”, os boletins eram afixados em locais movimentados da cidade
do Salvador, sede do governo da capitania da Bahia. Dizia um dos
panfletos dos revoltosos de Búzios: “está para chegar o tempo feliz da
nossa liberdade, tempo em que todos seremos irmãos, tempo em que todos
seremos iguais”. Os quatro heróis de Búzios foram presos e enforcados na
Praça da Piedade no dia 07 de novembro de 1799.
Fonte da imagem : http://www.comunidadesvirtuais.pro.br/buzios/
Panfleto revolucionário que apareceu afixado em
diversas partes de Salvador, em 1/08/798
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